terça-feira, 21 de abril de 2026

+ CIDADANIA: A vida atribulada de uma árvore em Braga

 


Nos últimos anos, os bracarenses têm convivido com um ritmo acelerado de corte e abate de árvores na sua área urbana. Se alguns dos abates são assumidos como urgentes e necessários pela população, outros há que são causadores de especial revolta. O escrutínio dos cidadãos perante a mais interventiva atuação dos serviços municipais, particularmente na última década, levou até à criação do movimento informal SOS Árvores.

Recordemos que o arvoredo urbano oferece um contributo relevante para a melhoria das condições de vida das populações, uma vez que arrefece o ar, proporciona sombra, melhora a qualidade do ar ao armazenar carbono e poluentes na sua biomassa e, no subsolo, as raízes das árvores atuam como esponjas quando chove, reduzindo o risco de inundações. A proteção das árvores deve ser, por isso mesmo, uma prioridade para as entidades responsáveis pela gestão das cidades.

A Organização Mundial de Saúde recomenda que todas as pessoas vivam a menos de 300 metros de um parque ou de uma zona verde, enquanto e a União Europeia aprovou a Lei do Restauro da Natureza, através da qual todos os países devem certificar-se de que as cidades não perdem espaço verde ou área coberta por arvoredo até 2030.

Em Portugal, a legislação publicada em 2021 (Lei n.º 59/2021, de 18 de agosto) impõe que todos os municípios elaborem um inventário completo do património arbóreo urbano. Estes inventários serão a base da quantificação dos benefícios ambientais que o arvoredo urbano traz às cidades. Em outubro de 2024, o Município de Braga lançou um concurso público para elaborar o inventário e cadastro do arvoredo urbano e, desde fevereiro de 2025, encontra-se em vigor o Regulamento Municipal do Arvoredo Urbano de Braga.

Para percebermos quando se iniciou esta, aparentemente, desnorteada caça às árvores temos que recuar a 4 de maio de 2015, dia em que, fatidicamente, a queda de uma árvore provocou a morte de um bracarense. Desde esse acontecimento, a Câmara Municipal de Braga efetuaria análises biomecânicas e de fitossanidade a todo o arvoredo de domínio público, tornando-se mais frequente o abate de árvores na área urbana.

Se quanto ao abate de algumas árvores se torna uma evidência a necessidade do seu abate, como sucedeu, por exemplo, com os castanheiros-da-índia outrora implantados na avenida São Miguel-o-Anjo ou com os monumentais lódãos, que se encontravam no arranque da avenida João XXI; torna-se mais difícil entender os abates de árvores relativamente jovens, e cuja superfície de corte não aparentava qualquer patologia, recentemente sucedidos na avenida Porfírio da Silva, rua de Santo Adrião, rua Costa Júnior ou avenida Júlio Fragata.

Se é verdade que a Divisão de Espaços Verdes e Jardins da Câmara Municipal de Braga tem vindo a tornar públicos todos os relatórios, nos quais é fundamentado o abate de árvores, cumpre-nos, enquanto cidadãos, questionar se os critérios de análise são suficientes para fundamentar as decisões tomadas. Quantas árvores caíram na cidade de Braga nas últimas décadas? Estará o nosso arvoredo tão patologicamente afetado para justificar este desbaste?

Outra questão, de não menor relevância, é o destino das madeiras das árvores abatidas. É utilizada pelos serviços de obras e manutenção municipais? É vendida em hasta pública?

Evidentemente que se saúda o zelo dos responsáveis municipais pelo estado de conservação e vitalidade das árvores implantadas no espaço público. O que se torna incompreensível é a facilidade com que os técnicos que efetuam as análises propõem taxativamente o abate, mesmo perante patologias que a curto ou médio prazo não implicam um risco de queda iminente. Por que não avançar para medidas paliativas e avaliação de risco mais frequente? Porque seguir o caminho mais fácil? Por isso mesmo, muitos cidadãos são surpreendidos com o abate de árvores aparentemente saudáveis e exibem uma singular revolta.

As árvores também fazem parte do ecossistema urbano. Também são seres vivos, cumprindo uma missão essencial na qualidade de vida dos cidadãos. Por isso mesmo, é fundamental que o abate de uma árvore seja encarado, não como uma medida banal e frequente, mas como a derradeira solução, entre alternativas que permitam manter a integridade do arvoredo implantado no espaço público.

Não é nosso propósito criticar o zelo dos serviços municipais ou a inibição de medidas que salvaguardem a segurança e salubridade dos cidadãos. Só não queremos que seja tão fácil derrubar uma árvore na nossa cidade.

 

 

Rui Ferreira

Presidente da Direção da Braga Mais

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