sábado, 12 de setembro de 2020

+ CIDADANIA: Por uma Reforma da Toponímia

A toponímia tem a sua origem etimológica na junção de dois vocábulos gregos, que significam “o nome do lugar”. A designação toponímica assume especial relevância na preservação da memória e identidade das comunidades, perpetuando personalidades, datas ou factos.

O topónimo também nos permite perceber a evolução histórica do lugar e as pessoas que aí tiveram a sua morada ou desempenhavam o seu ofício. Isto particularmente se aplica às ruas mais antigas de um determinado núcleo urbano.

A mudança de regimes políticos também aparece refletida na toponímia. Procurando, por um lado, apagar as denominações associadas ao regime anterior, e por outro exaltar o neófito regime. Estas alterações, levadas a efeito, muitas vezes, com fervor excessivo, contribuíram para a ausência de critérios objetivos e distância crítica. Assim sucedeu na cidade de Braga em diversos momentos. Recordemos o caso da rua do Souto, que chegou a designar-se rua Rodrigues de Carvalho ou da rua dos Capelistas que se a chamou de rua Conde de Paçô Vieira. Uma Reforma Toponímica, promovida em 1942, acabou por corrigir alguns dos excessos cometidos ainda no período monárquico, devolvendo os primitivos topónimos a algumas das ruas, que os bracarenses continuavam chamar pelo seu nome original.

A toponímia não deve ser uma mera opção administrativa, nem o somatório arbitrário de conjunturas políticas ou caprichos pessoais. Deve, sim, obedecer a um código de ponderação e uma certa racionalidade. Para que serve a toponímia senão para verter um dispositivo identitário atrás de si, remetendo para a história dos lugares, mas também homenageando factos e personalidades de relevância, primordialmente, local. Se as cidades não souberem ressaltar a sua própria memória coletiva, quem o fará?

É estranho que numa cidade onde prevalecem no entendimento comum topónimos como “Campo da Vinha”, “Largo das Latinhas”, “rua da Cónega” ou “Pelames”, insistamos nas designações que, em algum momento, a edilidade deliberou alterar. Nada me opõe ao Monsenhor Airosa ou ao Conde de Agrolongo, dado que ambos justificam plenamente figurar na toponímia bracarense, mas teria que ser à custa de nomes tão significantes para a cidade?

Por que não o regresso aos topónimos originais de algumas ruas, tal como foi feito, com relativa eficácia, em 1942? Porque não chamar Campo Novo à Praça Mouzinho de Albuquerque ou rua da Cónega à rua da Boavista? Não é esse o patente desejo dos bracarenses e um traço que remete para a própria história dos lugares?

Uma solução adotada por algumas cidades foi colocar a designação oficial acompanhada de uma alusão ao topónimo original. Também seria uma boa solução, todavia, em alguns casos, parece óbvia a opção pelo simples regresso à designação original, tal o grau de apropriação dos cidadãos em relação à primitiva denominação. O Campo da Vinha é assim designado desde o século XVI. O seu nome foi alterado duas vezes desde 1865 e os bracarenses continuam a conhecê-lo pelo seu topónimo original.

Outra questão que a toponímia levanta é o critério de atribuição dos novos topónimos. Quantos bracarenses saberão quem foi António Macedo ou o que fez para merecer ter o seu nome na avenida mais extensa da cidade? E qual a relevância para Braga do rei D. João II ou do literato Antero de Quental, dado que ambos designam duas das maiores artérias da cidade?

Pessoalmente não entendo como uma figura histórica com a relevância do Arcebispo D. Rodrigo de Moura Teles não foi escolhido como topónimo dessas novas ruas surgidas nas décadas mais recentes. É verdade que já se encontra na toponímia de duas ruas secundárias em freguesias periurbanas, mas não justificaria maior distinção? E a ausência de referências aos Suevos, que fizeram de Braga a capital do seu reino ibérico?

Quando falamos da toponímia uma outra problemática se levanta: as placas toponímicas, dado que passou a ser tutelada pelas juntas de freguesia. Nos municípios em que os regulamentos de toponímia não especificam um normativo a este propósito, as ruas tornam-se num verdadeiro depósito de estéticas, brasões e variações cromáticas.

Sabemos que hodiernamente, a designação toponímica se encontra numa fase de certa ataraxia. A cidade de Braga alargou-se imenso nas últimas décadas, refletindo-se na criação de novos arruamentos. No entanto, devido à existência de muitos espaços por urbanizar, têm sido mais escassas as propostas toponímicas que têm surgido. Essa circunstância deve obrigar a um critério apertado no que concerne à atribuição de novos topónimos, mas também poderia inaugurar a atribuição de topónimos a outros espaços anónimos, como os jardins ou rotundas.

A realização de uma Reforma da Toponímia, acompanhada pela criação de uma Comissão onde se reunisse um conjunto de pessoas no qual, além dos políticos responsáveis, teriam assento bracarenses que pensam e aprofundam a memória e identidade da cidade, aparece como uma possibilidade que poderia conferir maior sentido à toponímia bracarense, retificando alguns lapsos cometidos na história mais recente da nossa cidade.

 

 Rui Ferreira

Presidente da Direção da Braga Mais 

quinta-feira, 13 de agosto de 2020

+ PATRIMÓNIO: Percurso Brácaro Especial - Recolhimento das Convertidas

A JovemCoop completa neste mês de agosto mais um aniversário. Por isso mesmo, as associações Braga + e JovemCoop vão realizar um Percurso Brácaro Especial com uma visita guiada digital ao Recolhimento das Convertidas. Esta iniciativa, realizada em parceria com a Junta de Freguesia de São Victor e com os Amigos das Convertidas, decorre este sábado,15 de Agosto, a partir das 10h30, com o propósito de dar a conhecer um lugar do património bracarense que é especial para a nossa associação. A visita pode ser acompanhada a partir da página da JovemCoop no Facebook.

O Recolhimento de Santa Maria Madalena e São Gonçalo, mais conhecido como “Convertidas”, foi uma instituição de cariz assistencial fundada pelo Arcebispo D. Rodrigo de Moura Telles em 1720 sobre uma antiga ermida dedicada aos santos Bartolomeu e Gonçalo. Edifício barroco com a fisionomia de um convento, destinava-se a dar abrigo a «mulheres convertidas a Deus por livre vontade, arrependidas do coração e de seus erros», abrindo as portas a 22 ou 25 de abril de 1722.
Espaço de oração, trabalho e penitência para um número variável de duas a quatro dezenas de recolhidas, funcionava como uma comunidade religiosa, embora as motivações para as entradas fossem diversas. As expulsões e fugas eram frequentes. Com regente e capelão, a instituição viu revista a sua missão em sucessivas ocasiões, mantendo, todavia, o seu âmbito assistencial junto da população feminina.
Desde 1884 sob a alçada do Governo Civil, fechou as portas em 1999 devido ao estado de degradação em que se encontrava. Em 2012 foi classificado como Monumento de Interesse Público e em 2014 foi preservado e inventariado todo o seu espólio.

quarta-feira, 22 de julho de 2020

+ PATRIMÓNIO: Percursos Brácaros - Falperra

As associações Braga + e JovemCoop vão terminar esta série de Percursos Brácaros com uma visita guiada digital à Falperra, nomeadamente às capelas de Santa Marta do Leão e da Capela de Santa Maria Madalena. Esta iniciativa, realizada em parceria com a Junta de Freguesia de São Victor e com a Irmandade da Falperra, decorre este sábado, 25 de Julho, a partir das 10h30, com o propósito de dar a conhecer um lugar de património e celebração para todos os bracarenses, que coincide com a data da sua habitual romaria. A visita pode ser acompanhada a partir da página da JovemCoop no Facebook.
Tal como é usual na tradição cristã do Entre Douro e Minho, os pontos mais elevados desta montanha acolheram, desde cedo, lugares de culto. A devoção a Santa Marta foi instaurada no monte das Cortiças e, mais tarde e por influência deste, no seu sopé. Também Maria Madalena, que uma das tradições hagiográficas cristãs aponta como sendo irmã de Marta, viu surgir numa vertente oposta da Falperra – mais propriamente na base do Monte Frio - o seu espaço de culto, que seria redesenhado por André Soares em meados do século XVIII. Com esta visita guiada, as duas associações continuam a dar preferência ao legado de André Soares, associando-se às comemorações dos 300 anos do nascimento do artista bracarense.

quarta-feira, 1 de julho de 2020

+ Património: Percursos Brácaros - Palácio do Raio


As associações Braga + e JovemCoop vão dar continuidade aos seus Percursos Brácaros com uma visita guiada digital ao Palácio do Raio. Esta iniciativa, realizada em parceria com a Junta de Freguesia de São Victor e com a Misericórdia de Braga, decorre este sábado, 4 de Julho, a partir das 10h30, com o propósito de dar a conhecer a história e o património deste exemplar tão relevante da arquitetura civil bracarense. A visita pode ser acompanhada a partir da página da JovemCoop no Facebook. O palácio do Raio é uma das obras-primas de André Soares. Construído a partir de 1752, destinava-se a servir de habitação à família do rico comerciante João Duarte Faria. Sofreu algumas alterações no decorrer do século XIX, quando estava na posse de Miguel José Raio, o homem que deixou o seu nome à casa. Contudo, a designação do palácio mais popular entre os bracarenses era "Casa do Mexicano", devido à estátua do que aparenta ser um turco, que se encontra em destaque na escadaria principal, e saiu também das mãos do mestre André Soares. O palácio do Raio esteve, até 2011, na posse do Estado. Como sua proprietária, a Santa Casa da Misericórdia de Braga encetou um processo de reabilitação ao edifício, passando a acolher, desde 2015, os serviços centrais da instituição e o Centro Interpretativo Memórias da Misericórdia de Braga. Desta forma, as duas associações continuam a dar preferência ao legado de André Soares, associando-se às comemorações dos 300 anos do nascimento do artista bracarense.

quarta-feira, 17 de junho de 2020

+ PATRIMÓNIO: Percursos Brácaros - Capela de São João da Ponte



Aproximando-se as Festas de São João, momento primordial da celebração coletiva bracarense, damos continuidade aos nossos Percursos Brácaros com uma visita guiada digital à Capela de São João da Ponte. Depois da bem-sucedida visita digital à Capela de Guadalupe, a JovemCoop e a Braga Mais juntam-se novamente com o propósito de dar a conhecer o património bracarense.

Esta iniciativa, realizada em parceria com a Junta de Freguesia de São Victor e com a Paróquia de Santo Adrião, decorre este sábado, 20 de Junho, a partir das 10h30com o propósito de dar a conhecer a história e o património deste templo tão especial para os bracarenses. A visita pode ser acompanhada a partir da página da JovemCoop no Facebook.

A Capela de São João da Ponte é um dos ícones das sanjoaninas bracarenses. Edificada em 1616, surge no preciso local onde decorria o epicentro das celebrações em honra de São João Baptista na cidade de Braga. A corrida do porco preto, citada pelo menos desde o século XVI, atraía então as atenções populares e concentrava toda a dinâmica dos festejos. A proibição da incorporação da Bandeira da Cidade, com a representação de Nossa Senhora, na Corrida do Porco Preto, ocorrida em 1614, acabaria por ser o mais que provável fundamento para a construção da capela. Dizem as atas municipais que em substituição da Bandeira se deveria celebrar uma eucaristia antecedendo a corrida, talvez para acalmar os acicatados ânimos que precediam a competição. No ano seguinte já se falava da ermida “que se fazia à Coutada dos Arcebispos”.

Apesar do desaparecimento da célebre Corrida do Porco Preto, a Capela continuou a ser um dos epicentros das seculares celebrações bracarenses a São João Baptista, realizando-se no seu entorno uma “grande feira anual” a 23 e 24 de Junho. Espaço de memória e de memórias, muitas delas associadas inevitavelmente aos festejos sanjoaninos, a valia desta capela não se mede pela sua qualidade artística, mas pela importância comunitária de que se reveste para os bracarenses. A capela tem uma arquitetura singela, com dois campanários e um alpendre, tendo sido reformada provavelmente nos finais do século XVIII e início do seguinte. Na verga da porta principal do templo é observável a data da sua construção: “ANNO DE 1616”. Localizada junto a uma das principais saídas da cidade, a estrada para Guimarães, a capela adquiriu o nome em referência à ponte que servia de passagem sobre o rio Este. 

A capela, devotada “ao Bautista” - como no-lo comprovam crónicas setecentistas - apesar de algumas infundadas dúvidas colocadas sobre a titularidade do orago, detinha outras destacadas devoções como é o caso de Nossa Senhora do Parto ou de São Cristóvão. Mais tarde acabariam por incorporar-se as devoções a Santa Felicidade e ao Senhor da Saúde, outrora nas Carvalheiras. Enriquecida em 1919 com alguns elementos do demolido Convento dos Remédios, a Capela de São João da Ponte viu surgir no seu entorno o primeiro parque urbano de Braga.


terça-feira, 2 de junho de 2020

+ PATRIMÓNIO: Percurso Brácaro: Capela de Guadalupe

A Braga + viu abalada a sua atividade perante a pandemia que se instalou na nossa sociedade desde o passado mês de março, continuando hoje a condicionar o nosso quotiadiano. Por isso mesmo, foi imperativo cancelar todas as ações previstas até ser viável a sua retoma.

Adaptando-nos a este exigente contexto, e de forma a continuarmos a viver a nossa missão, vamos promover, em conjunto com a JovemCoop, um ciclo quinzenal de visitas guiadas digitais, que decorrerá até ao final de julho, mais propriamente nos dias 6 e 20 de junho, 4 e 18 de julho. 

A primeiras destas iniciativas decorre este sábado com uma visita guiada digital à Capela de Guadalupecom o propósito de dar a conhecer a história e o património deste templo tão especial da cidade de Braga. A visita decorre a partir das 10h30 deste sábado, 6 de junho, a partir da página da JovemCoop no Facebook.

A cidade de Braga possui inúmeros lugares que, pela sua localização em espaços mais distantes dos circuitos principais ou até pela sua geografia, se encontram mais ausentes do conhecimento dos próprios bracarenses. É esse o paradigmático caso da Capela de Guadalupe, localizada sobre uma elevação muito próxima da Avenida Central, envolvida por um pequeno parque verde, além de permitir um miradouro natural para a zona nascente da cidade. Está escondida, podemos dizê-lo, mas demasiado próxima dos espaços mais frequentados da cidade.

terça-feira, 21 de janeiro de 2020

MEMÓRIAS DE BRAGA: Livrarias bracarenses


Braga + promove no próximo dia 30 de janeiro, pelas 21h30, mais uma tertúlia inserida no ciclo Memórias de Braga, que vai ter como temática principal as Livrarias Bracarenses, aquelas que ainda hoje exercem a sua atividade, mas particularmente as que já desapareceram e deixaram uma memória significativa na comunidade bracarense.

Esta iniciativa, que se realiza no auditório da Junta de Freguesia de São Victor, terá como convidados Augusto Ferreira (Livraria Cruz e Livraria Minho), Fernando Santos (Livraria Cruz), Manuel Bonjardim (Livraria Pax e Livraria Bracara) e Fernando Mendes (Livraria Nova Cultura). A moderação estará a cargo de Rui Ferreira.

Como vem sendo habitual, durante a sessão estará exposta uma pequena mostra de documentos e fotografias recolhidos por Fernando Mendes, que complementam a informação que será abordada nesta sessão.

Ao longo do último século e meio, Braga foi muito pródiga em livrarias que, por motivos diversos, deixaram de existir. Memoramos as desaparecidas Livraria Cruz, Livraria Gualdino Correia, Livraria Pax, Livraria Casa do Globo, Livraria Victor, Livraria Augusto Costa, Livraria Central, Livraria Académica, Livraria Nova Cultura, Livraria Palha, Livraria Íris ou a Livraria Sameiro, deixando fora deste rol aquelas que continuam a cumprir, hoje, a sua missão. Muitas destas livrarias, além de fomentarem o gosto pela leitura e permitirem o acesso aos livros que se iam publicando, deram um contributo incalculável como editoras.

Recorde-se que o ciclo “Memórias de Braga” realiza-se, com constância bimestral. Cada conversa, que se quer informal, anda à volta de um ou mais convidados. O objetivo é mesmo o de conversar, público e convidado, no sentido de partilhar e construir memórias sobre a cidade.