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Hoje, dia 14 de setembro, os
cristãos celebram a festa da exaltação da Santa Cruz e este texto até poderia
debruçar-se sobre essa coincidência temporal. No entanto, o nosso objetivo é
abordar a cruz das Convertidas, não entendendo necessariamente “cruz” como
sinónimo de “calvário”, “tormento” ou “martírio”, mas até poderia ser.
O Recolhimento de Santa Maria
Madalena e São Gonçalo, mais conhecido como “Convertidas”, instituição de cariz
assistencial fundada pelo Arcebispo D. Rodrigo de Moura Telles em 1722 sobre
uma antiga ermida dedicada aos santos Bartolomeu e Gonçalo, continua o seu
calvário, degradando-se progressivamente e sem qualquer solução para o seu
futuro em perspetiva.
Tutelado pelo Ministério da
Administração Interna, o edifício seria classificado como Monumento de
Interesse Público em 2012. Apesar disso, a Câmara Municipal de Braga, com a
complacência da Direção Regional de Cultura do Norte, haveria de permitir a
construção de uma unidade hoteleira, com uma volumetria muito questionável num
quarteirão do centro histórico, que implicou uma violenta operação urbanística,
com a consequente implosão de um subsolo altamente granítico e da extração
contínua de terra. A entrada e saída dos veículos pesados foi efetuada paredes
meias com o monumento, sem conhecermos exatamente que efeitos terá tido sobre o
seu estado de conservação.
Sim, a cruz das Convertidas bem
poderia referir-se aos tormentos a que este Monumento de Interesse Público tem
estado sujeito, particularmente enquanto decorreu a realização do
empreendimento levado a efeito nos terrenos contíguos. No entanto, a cruz a que
pretendemos aludir é o crucifixo de pedra que encimava parede nascente do
edifício, que corresponde precisamente ao limite do seu templo.
Como iniciativa arcebispal, o
Recolhimento das Convertidas era assinalado pela chamada cruz dobrada, um
crucifixo com duas travessas, possuindo um braço menor acima do maior, ambos
mais próximos do topo que da base, que é uma insígnia reservada aos Arcebispos
ou Patriarcas.
Por algum motivo - certamente
não associado à suavidade e correção do processo urbanístico vizinho… - a cruz
caiu ou foi derrubada. Em sua substituição foi lá colocada uma réplica, que
infelizmente não replica a versão original, dado tratar-se de uma cruz simples
e não da cruz arcebispal que lá se encontrava. Certamente um acontecimento
desconhecido da maioria dos bracarenses, inclusive os amantes do seu património
cultural.
A errónea e descuidada
substituição do crucifixo é profundamente reveladora do zelo e diligência com
que a entidade promotora do empreendimento da unidade hoteleira tratou o
edifício do Recolhimento das Convertidas durante todo o processo de obra. Este
desacertado câmbio é também um sintoma muito evidente da apatia e negligência
das entidades públicas a quem compete a vigilância e acompanhamento de uma obra
realizada no centro histórico de uma cidade com a relevância histórica e
patrimonial de Braga, em particular quando a mesma decorreu na área especial de
proteção de um monumento classificado…
Por isso mesmo, é imperativo e
urgente a realização de um diagnóstico do estado de conservação do Recolhimento
das Convertidas após esta violenta intervenção urbanística, que jamais deveria
ter sido permitida na zona especial de proteção de um monumento classificado.
Esse relatório deve tentar apurar os danos provocados sobre a sua estrutura
edificada, que já se encontrava especialmente deteriorada, e que poderá ter
acelerado o processo de devastação em que o edifício se encontra desde que foi
desocupado em 1999.
O Recolhimento das Convertidas
afirma-se como um monumento singular no contexto do património cultural barroco
da cidade de Braga, conservando características que tornam imperativa a sua
reabilitação e salvaguarda.
Essa responsabilidade recai particularmente
na sua entidade tutelar, o Ministério da Administração Interna, mas também na
Câmara Municipal de Braga, zeladora putativa dos interesses da comunidade, mas
também na sociedade civil, que não pode deixar-se tomar pela letargia provocada
por manobras de distração ou ruídos institucionais.
Rui Ferreira
Presidente da Direção da Braga Mais