domingo, 14 de junho de 2026

+ CIDADANIA: Braga também é de Santo António

 

A cidade de Braga exibe um vínculo histórico e emocional a São João Baptista, o santo mais celebrado de Braga, pelo menos, desde o século XVI, no entanto, também outro dos Santos Populares, no caso Santo António, deteve um protagonismo assinalável no âmbito da religiosidade bracarense.

Nascido em Lisboa no ano de 1195, tornar-se-ia religioso franciscano, tendo conhecido o fundador daquela ordem religiosa, São Francisco de Assis. Exímio pregador, veio a falecer no dia 13 de junho de 1231, tendo sido sepultado na cidade italiana de Pádua. Devido à sua inteligência e dotes oratórios, é considerado um dos maiores santos da história do Cristianismo, exibindo uma singular popularidade em muitos lugares da Cristandade e estando associado a um conjunto significativo de práticas supersticiosas.

O primeiro indício deste culto na cidade de Braga foi registado numa das portas da muralha medieval. O Postigo de Santo António, aberto presumivelmente no século XIV, detinha um nicho com a imagem do santo, que terá sido o primeiro local de evocação do taumaturgo lisboeta. Seria no espaço contíguo a esta passagem medieval, demolida na década de 1780, que, a partir de 1572, surgiria o Recolhimento das Beatas de Santo António, numa iniciativa do padre Domingos Peres, que a legaria à Misericórdia de Braga a partir de 1608. Apesar de ter sobrevivido até à República, o edifício do Recolhimento, voltado ao Campo da Vinha, seria demolido em 1885, em virtude do alargamento da rua de Santo António da Praça.

Bem próximo destes dois espaços surgiria, presumivelmente no início do século XVII, a Capela de Santo António da Praça, também designada de Santo António do Campo dos Touros, um popular espaço de culto instalado na cerca do antigo Paço dos Arcebispos e voltado à atual Praça Municipal, que seria demolido em 1949, na sequência da abertura da atual rua Eça de Queiroz. Entretanto, o seu culto seria transferido para uma das capelas laterais da Igreja do Pópulo. Este autêntico complexo antoniano bracarense, constituído pelo postigo medieval, recolhimento de beatas e capela, desapareceria completamente do quotidiano bracarense.

Além da Capela de Santo António da Praça, a cidade de Braga contaria com outro templo devotado a este popular orago. Trata-se da Capela de Santo António dos Esquecidos, erigida em 1706 na lateral da Capela dos Coimbras. Surgindo a partir da intensa devoção de que era alvo uma das esculturas que se exibia num dos nichos exteriores da Capela dos Coimbras, esta capela, que contava com um oratório gradeado e uma peculiar escadaria de acesso, seria projetada por Manuel Fernandes da Silva, tendo sido demolida em 1926, na sequência do processo de reedificação da Casa dos Coimbras.

Também a rua de Santo António das Travessas, que chegou a ser uma das mais controversas da cidade - pelo facto de ter acolhido a segunda judiaria bracarense e por ter sido, durante mais de um século, o lugar preferencial da profissão mais antiga do mundo – honraria o taumaturgo lisboeta no seu topónimo, substituindo a medieval designação de “triparia”, devido a um popular nicho que exibia uma escultura do santo, outrora existente no edifício tardo-gótico, atualmente integrante da Biblioteca Lúcio Craveiro da Silva.

Mantendo populares festividades em diversas freguesias do concelho, como é o caso de Lomar, Lamas, Aveleda, Tebosa ou Espinho, Santo António também é celebrado com intensidade na freguesia da Sé, onde se realiza as Marchas de Santo António, numa iniciativa que chegou a contar com uma programação mais extensa nas décadas de 1970 e 1980.

Organizada pelos moradores do largo da Boa Luz e da rua Dom Gualdim Pais, haveria de ser assumida pela associação dos Bravos da Boa Luz. Atualmente, os templos dos Terceiros e do Pópulo mantêm uma singular devoção em honra de Santo António, continuando a distribuir o “pão dos pobres”, no dia da sua festa.

Devido à relevância que a devoção a Santo António detém na história da religiosidade bracarense, a associação Braga Mais organiza hoje, dia em que a Igreja Católica celebra um dos seus mais populares santos, uma Rota Antoniana, percorrendo os espaços onde este culto exibe singular vitalidade, mas também evocando os lugares que outrora lhe eram devotados.

 

 

Rui Ferreira

Presidente da Direção da Braga Mais

Sem comentários:

Enviar um comentário