sábado, 21 de fevereiro de 2026

+ CIDADANIA: Que futuro para o edifício da Ranhada Teixeira?

 


A Avenida da Liberdade foi o projeto mobilizador da cidade de Braga nas primeiras décadas do século XX. Começada a concretizar a partir de 1908, apenas conheceria o seu epílogo na década de 1970, com a construção dos últimos edifícios e com a demolição da Igreja de São Lázaro.

Sendo justamente destacada a ação do arquiteto João de Moura Coutinho de Almeida d’Eça (1872-1954), autor dos projetos de quase todos os edifícios do topo Norte da Avenida da Liberdade, entre os quais se salienta o Theatro-Circo, a verdade é que existem outros projetos arquitetónicos dignos de singular menção. Um desses é, indubitavelmente, o edifício da Ranhada e Teixeira, onde outrora esteve instalada a Estação de Serviço e concessionária provincial da Ford.

Ocupando todo o quarteirão delimitado a norte pelo antigo largo das Latinhas (atual Largo do Senhor dos Aflitos) e a sul pelo rio Este, localiza-se na extremidade sul da avenida da Liberdade, afirmando-se pela sua imponência e monumentalidade.

Concebido na década de 1940 (encontrava-se em funcionamento em 1949) sobre o antigo lugar dos Curadouros, um terreno desocupado, que se inclinava até ao rio Este, onde habitualmente as lavadeiras colocavam a roupa a ‘corar’, o seu projeto foi da autoria de João Simões (1908-1993), premiado arquiteto lisboeta que, na cidade de Braga, conceberia também o projeto do Estádio 1.º de maio e do antigo Café Avenida (atual Mc Donald’s).

Além da imponência e da vasta área de implantação, o edifício da Ranhada e Teixeira apresenta alguns apontamentos artísticos, como é o caso do painel azulejar representando a antiga província do Minho, com referências a todas as sedes de concelho, localizado no espaço onde se situava o posto de combustível; outro painel de azulejo, de menores dimensões, adorna a porta de entrada do bloco de apartamentos, representando o Batismo de Cristo, numa alusão declarada aos Quadros Bíblicos representados nas margens do rio Este, durante as Festas de São João, mesmo ao lado do edifício; por fim, adornando o torreão que marca o ângulo norte do edifício, encontra-se uma representação, em baixo-relevo, de São Cristóvão.

Estes apontamentos artísticos, vinculados propositadamente à identidade do seu lugar de implantação, bem como à missão para o qual foi construído, reforçam o mérito do projeto, que pode ser enquadrado nos cânones do chamado ‘português-suave’.

Propriedade privada e atualmente desocupado, após quase duas décadas a servir como grande superfície de produtos provenientes da China, o futuro do edifício estará certamente em equação, não tardando a surgir nos gabinetes municipais um projeto para a sua revitalização, que poderá, eventualmente, implicar a sua adulteração e descaracterização.

Se é verdade que aos cidadãos compete vigiar, questionar e exigir que as entidades públicas cumpram a sua missão, não é menos verdade que as entidades públicas têm o imperativo de promover a salvaguarda do bem-comum, fazendo-se valer de todos os meios ao seu dispor para a cumprir.

Por isso mesmo, e após várias décadas de destruição de edificado relevante do ponto de vista patrimonial, continuemos a assistir à destruição ou descaracterização de imóveis com valia arquitetónica e artística, simplesmente por impassibilidade dos poderes públicos, nomeadamente da Câmara Municipal de Braga.

A classificação de bens imóveis como Interesse Municipal é um ato administrativo que visa salvaguardar o património com valor significativo para o município, ficando sujeitos a regras rigorosas de preservação e limitando alterações que descaracterizem o seu valor cultural.

 Os proprietários mantêm o direito de uso, mas ficam limitados pelas regras de conservação e proteção do património, podendo, até, gozar de benefícios fiscais (como a isenção de IMI). Qualquer obra ou intervenção no imóvel necessita de aprovação prévia, com parecer técnico, estando a transmissão (venda) do imóvel dependente de comunicação prévia aos serviços competentes.

O emblemático edifício da Ranhada e Teixeira é um caso paradigmático de uma obra de relevante valia arquitetónica e artística desprovida de qualquer proteção legal. Por isso mesmo, urge questionarmos o seu futuro, no momento em que se encontra devoluto e, certamente, a aguardar um projeto de revitalização.

Numa cidade com um historial infeliz na proteção dos seus imóveis com relevância patrimonial, é imperativo a realização de um inventário do edificado existente no território do Concelho de Braga, tendo em vista a sua salvaguarda, nomeadamente através de propostas de classificação.

 

Rui Ferreira

Presidente da Direção da Braga Mais

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