quinta-feira, 26 de março de 2026

+ PATRIMÓNIO: Rota da Paixão


 

A associação Braga+ organiza, no próximo sábado, dia 4 de abril, mais um percurso pelo património bracarense, desta feita propondo uma Rota da Paixão, que se propõe percorrer a história dos altares dos Passos, que se implantam no centro histórico da cidade de Braga.

Este percurso cultural intitulado “Rota da Paixão”, tem início marcado para as 10h00 no Largo Carlos Amarante, no adro da Igreja de Santa Cruz. Realizada no dia que antecede a Páscoa, esta iniciativa  pretende ajudar a interpretar um dos elementos mais emblemáticos das solenidades bracarenses da Semana Santa.

Associados à Procissão dos Passos, que foi introduzida em Braga no ano de 1597 pelo Arcebispo D. Frei Agostinho de Jesus, estes sete oratórios setecentistas implantam-se ao longo do seu percurso, evocando diferentes momentos da Via Sacra.

Deslocalizados de acordo com as sucessivas alterações urbanísticas e demolições verificadas no centro histórico de Braga, particularmente entre meados do século XIX e os primeiros anos do século XX, os altares dos Passos seriam especialmente reformulados em 2017.

Esta e muitas outras histórias poderão ser conhecidas num percurso que irá percorrer os espaços fundamentais deste cerimonial ao longo de duas horas. A orientação será da responsabilidade de Rui Ferreira.

sábado, 21 de fevereiro de 2026

+ CIDADANIA: Que futuro para o edifício da Ranhada Teixeira?

 


A Avenida da Liberdade foi o projeto mobilizador da cidade de Braga nas primeiras décadas do século XX. Começada a concretizar a partir de 1908, apenas conheceria o seu epílogo na década de 1970, com a construção dos últimos edifícios e com a demolição da Igreja de São Lázaro.

Sendo justamente destacada a ação do arquiteto João de Moura Coutinho de Almeida d’Eça (1872-1954), autor dos projetos de quase todos os edifícios do topo Norte da Avenida da Liberdade, entre os quais se salienta o Theatro-Circo, a verdade é que existem outros projetos arquitetónicos dignos de singular menção. Um desses é, indubitavelmente, o edifício da Ranhada e Teixeira, onde outrora esteve instalada a Estação de Serviço e concessionária provincial da Ford.

Ocupando todo o quarteirão delimitado a norte pelo antigo largo das Latinhas (atual Largo do Senhor dos Aflitos) e a sul pelo rio Este, localiza-se na extremidade sul da avenida da Liberdade, afirmando-se pela sua imponência e monumentalidade.

Concebido na década de 1940 (encontrava-se em funcionamento em 1949) sobre o antigo lugar dos Curadouros, um terreno desocupado, que se inclinava até ao rio Este, onde habitualmente as lavadeiras colocavam a roupa a ‘corar’, o seu projeto foi da autoria de João Simões (1908-1993), premiado arquiteto lisboeta que, na cidade de Braga, conceberia também o projeto do Estádio 1.º de maio e do antigo Café Avenida (atual Mc Donald’s).

Além da imponência e da vasta área de implantação, o edifício da Ranhada e Teixeira apresenta alguns apontamentos artísticos, como é o caso do painel azulejar representando a antiga província do Minho, com referências a todas as sedes de concelho, localizado no espaço onde se situava o posto de combustível; outro painel de azulejo, de menores dimensões, adorna a porta de entrada do bloco de apartamentos, representando o Batismo de Cristo, numa alusão declarada aos Quadros Bíblicos representados nas margens do rio Este, durante as Festas de São João, mesmo ao lado do edifício; por fim, adornando o torreão que marca o ângulo norte do edifício, encontra-se uma representação, em baixo-relevo, de São Cristóvão.

Estes apontamentos artísticos, vinculados propositadamente à identidade do seu lugar de implantação, bem como à missão para o qual foi construído, reforçam o mérito do projeto, que pode ser enquadrado nos cânones do chamado ‘português-suave’.

Propriedade privada e atualmente desocupado, após quase duas décadas a servir como grande superfície de produtos provenientes da China, o futuro do edifício estará certamente em equação, não tardando a surgir nos gabinetes municipais um projeto para a sua revitalização, que poderá, eventualmente, implicar a sua adulteração e descaracterização.

Se é verdade que aos cidadãos compete vigiar, questionar e exigir que as entidades públicas cumpram a sua missão, não é menos verdade que as entidades públicas têm o imperativo de promover a salvaguarda do bem-comum, fazendo-se valer de todos os meios ao seu dispor para a cumprir.

Por isso mesmo, e após várias décadas de destruição de edificado relevante do ponto de vista patrimonial, continuemos a assistir à destruição ou descaracterização de imóveis com valia arquitetónica e artística, simplesmente por impassibilidade dos poderes públicos, nomeadamente da Câmara Municipal de Braga.

A classificação de bens imóveis como Interesse Municipal é um ato administrativo que visa salvaguardar o património com valor significativo para o município, ficando sujeitos a regras rigorosas de preservação e limitando alterações que descaracterizem o seu valor cultural.

 Os proprietários mantêm o direito de uso, mas ficam limitados pelas regras de conservação e proteção do património, podendo, até, gozar de benefícios fiscais (como a isenção de IMI). Qualquer obra ou intervenção no imóvel necessita de aprovação prévia, com parecer técnico, estando a transmissão (venda) do imóvel dependente de comunicação prévia aos serviços competentes.

O emblemático edifício da Ranhada e Teixeira é um caso paradigmático de uma obra de relevante valia arquitetónica e artística desprovida de qualquer proteção legal. Por isso mesmo, urge questionarmos o seu futuro, no momento em que se encontra devoluto e, certamente, a aguardar um projeto de revitalização.

Numa cidade com um historial infeliz na proteção dos seus imóveis com relevância patrimonial, é imperativo a realização de um inventário do edificado existente no território do Concelho de Braga, tendo em vista a sua salvaguarda, nomeadamente através de propostas de classificação.

 

Rui Ferreira

Presidente da Direção da Braga Mais